segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ensaio sobre a cegueira

Vou me aventurar e falar sobre esse filme.

Primeiramente, não há explicação para não ser bem aceito no Festival de Veneza. Desculpem os 'entendidos' de lá, mas eles não sabem o que é um bom filme.
O filme é forte, é pesado, não considero que sejam defeitos, e sim qualidades. As cenas mais chocantes são as que mais fazem pensar em como vivemos, e como tudo se transforma.
Creio que a sociedade é 'domada', temos todos coleira do tipo enforcador, que nos dita o que podemos ou não fazer. Somos animais, nosso instinto de sobrevivência está levemente adormecido, e não custa muito para acordar. Viver entre nós é uma questão de civilidade, até o ponto mostrado no filme. Quando ninguém pode nos ver, não há como apontar culpado, nem condenar réus, se abre a porta para todos os desejos abafados dentro de nós. E isso não é um absurdo. Todos nós nos limitamos e não agimos como queremos porque temos uma fucinheira nos ditando como ou não proceder.
E o filme mostra o que acontece quando nos é tirado do pescoço a coleira das normas de boa vivência. Um dos aspectos explorados que me espantou foi a sujeira dos lugares. Porque será que perderíamos o bom senso e a higiene somente por não enxergarmos mais. Será que não jogamos lixo na rua porque os outros veem, será que não fazemos nossas necessidades fisiológicas em qualquer lugar por vergonha dos outros? Por que esqueceríamos de todo e qualquer respeito aos outros pela perda da visão?
A separação entre a ordem e a desordem social é tênue. A mínima ameaça à vida de qualquer sujeito derruba o bem social e se instala o caos. A racionalidade que consideramos a nossa maior diferença para os animais quase que simplesmente some, e nos igualamos a seres quadrúpedes.
Esse filme gera uma confusão de pensamentos porque nos choca com o comportamento que podemos ter diante de situações que nos fogem ao controle. Existe um medo pessoal de um dia viver uma situação de ameaça e perder o respeito ao próximo.